Fazem parte da primeira leva de emigrantes ucranianos que chegou ao país no início do século XXI. A crise económica que se vivia na Ucrânia empurrou-os para outros países da Europa e Portugal foi a escolha de perto de 80 mil. Hoje são cerca de 28 mil, mais 15 a 20 mil que já possuem dupla nacionalidade e, por isso, não fazem parte das estatísticas do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
Muitos optaram pelos distritos de Santarém e Leiria. Alguns encontraram emprego nas empresas do Grupo J.J. Louro Pereira. Chegaram com o objetivo de ficar não mais de um ano, mas acabaram por aqui permanecer e constituir família. Falámos com parte deles para perceber como foi a sua integração e como estão a viver o drama da guerra vista à distância, mas sentida de perto no seu país de origem onde permanecem familiares, amigos e o coração.
Mantendo o compromisso de apoiar as comunidades que mais precisam, sobretudo as que nos estão mais próximas, o Grupo J. J. Louro Pereira aderiu à iniciativa do Governo da República Portuguesa e do IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional – “Portugal for Ukraine”, disponibilizando várias ofertas de emprego nas diferentes empresas do Grupo, dirigidas aos cidadãos ucranianos que optam por Portugal para fugir ao conflito armado que assola o seu país de origem.
Pontualmente, o Grupo tem sido também solicitado para ajudar a comunidade local, quer com a recolha de bens alimentares, de higiene ou com a doação de mobiliário para tornar habitáveis e confortáveis casas destinadas a famílias ucranianas que continuam a chegar à região.
Natalya Hryshyna
Natalya tem 40 anos, metade dos quais vividos em Portugal e a trabalhar na secção de móveis da J.J. Louro, em Amiais de Cima. Saiu da Ucrânia seguindo os passos do namorado. Ambos tinham a intenção de trabalhar uns anos, juntar algum dinheiro e regressar a casa, mas acabaram por ficar. “Tenho duas filhas, uma de 15 e outra de 12 anos. Quanto mais tempo se passa fora do país, mais difícil é regressar e refazer a vida lá. Voltar a integrar-nos. Estamos bem aqui, todos temos nacionalidade portuguesa”, conta.
No trabalho, apesar da dificuldade inicial por não falar português, conseguiu ir aprendendo a língua com a ajuda de uma colega que falava inglês e agradece ao chefe que nunca reclamou. Escrevia num papel as palavras em português, inglês e russo. Natalya é da região de Kherson, junto à Crimeia, onde parte da população fala russo. Foi nesta cidade que deixou a mãe, o irmão, a sobrinha, a cunhada (os seus dois filhos) e os sogros. “A cidade está ocupada pelos russos e ninguém pode sair. Durmo mal todos os dias, chego a casa, ligo a televisão, vejo as notícias e fico angustiada”, diz-nos de voz embargada.
Tem conseguido manter o contacto possível com a família e amigas dos tempos da faculdade de Economia, curso que abandonou quando veio para Portugal. Falámos com Natalya ao 19º dia do conflito. O seu irmão apresentou-se como voluntário do exército ucraniano e Natalya, estando longe, ajuda como intérprete. No dia anterior tinha ido visitar os 22 refugiados que chegaram à Quinta do Arrife, em Amiais de Cima, Santarém. A maior parte são mulheres e já começam a perguntar por trabalho. Natalya garante que a sua disponibilidade para ajudar, depois do horário de trabalho, é total.
Viktor Baranov
Viktor, de 65 anos, chegou a Portugal no ano 2000. Veio de Khmelnytskyi, cidade perto da fronteira com a Polónia. Lá deixou a mulher e dois filhos, agora na casa dos 30. Um colabora na ajuda humanitária e faz a distribuição de comida a outras cidades. O outro, empresário do ramo do têxtil-lar, adaptou o negócio e agora produz fardamentos para os militares ucranianos. A última vez que esteve com eles e com os netos foi o ano passado quando ali viajou de férias.
Como tantos compatriotas, Viktor saiu da Ucrânia porque não encontrava trabalho. Antes de chegar ao Porto, para trabalhar nas obras, incentivado por amigos que já cá estavam, trabalhou dois anos em Israel na construção civil. No currículo tinha já 20 anos de trabalho, também na construção, em Riga, na Letónia.
Através da empresa do Porto trabalhou na construção de estradas por todo o país. Foi assim que travou conhecimento com um conterrâneo residente em Alcanena. Trabalhava nos curtumes e convenceu-o a mudar-se para a região. Chegou em 2003 e, desde então, tem trabalhado na J.J. Louro, em Amiais de Cima. Aqui passou por praticamente todas as secções, desde os colchões aos móveis e confessa que se sente feliz e realizado.
O Português aprendeu-o também com amigos e colegas de trabalho, mas em casa a televisão é sintonizada nos canais ucranianos. Vê também alguns canais russos e fica “fulo” com a quantidade de mentiras que veiculam.
Quando o conflito começou juntou-se à comunidade ucraniana de Alcanena e adquiriram comida e bens para enviar para a Ucrânia.
Hryhoriy Bondarenko
Hryhoriy, ou Gregory como lhe chamam os colegas, para ultrapassar a dificuldade de articular o nome original, trabalha na J.J. Louro há 20 anos. Chegou a Portugal um ano antes. Por influência de amigos ucranianos, veio para a zona de Amiais de Baixo.
Encontrámo-lo no seu posto de trabalho, nas pinturas, de auricular no ouvido. “Estou permanentemente em contacto com a minha família, nunca sabemos se aquela vai ser a última palavra que trocamos”, diz-nos apreensivo.
Hryhoriy, de 52 anos, é natural de Sumy, cidade onde deixou o pai, uma irmã e dois sobrinhos. Sumy, no noroeste da Ucrânia, e perto da fronteira com a Rússia, é uma das cidades mais fustigadas pela guerra atualmente e, segundo Hryhoriy não há corredores humanitários suficientes para que os civis possam sair.
A preocupação está espelhada no rosto cansado. “Não tenho uma noite de sono tranquila desde o início do conflito”. A sobrinha está grávida, assim como a mulher do sobrinho. Teme pela sua saúde e segurança, mas também do sobrinho, ao serviço do exército ucraniano na ajuda humanitária.
Tinha férias marcadas para breve, mas só as gozará se conseguir que a família venha para Portugal. Caso contrário prefere continuar a trabalhar, para distrair a cabeça. “Se fico em casa só a ouvir as notícias dou em louco”, desabafa.
Hryhoriy faz parte do mesmo grupo de Viktor Baranov, que organizou uma recolha de alimentos e bens para enviar para a Ucrânia, a partir de Alcanena. “Sei que não é o alimento mais saudável, mas comprei muitas guloseimas para as crianças. Para que tenham pelo menos um pouco de alegria”, confessa.
Hennadiy Cherneha
Hennadiy, 57 anos, chegou a Portugal há 15. Veio em busca de trabalho e de melhores condições económicas e qualidade de vida. Encontrou-as há nove anos na Lusocolchão, em Santarém, onde trabalha no setor da espuma.
Gosta da sua função e da empresa, mas não consegue convencer os familiares que deixou na Ucrânia, na região de Vinnytsia, no centro do país, a cerca de 400 km da capital Kiev, a vir ter consigo.
Os motivos são diversos. A mãe, já de idade, não quer abandonar a pátria nem se sente com força para recomeçar num novo país. Já os irmãos e os sobrinhos estão proibidos de sair do território, ao abrigo da lei marcial que dita que todos os homens com idades compreendidas entre os 18 e os 60 anos podem ser chamados a ingressar o exército ucraniano e a defender o país do ataque da Rússia.